UMA BOA CONVERSA SOBRE O PROCESSO DE DISTRIBUIÇÃO

Augusto de Franco
[Este post foi originalmente feito como um comentário a um post do Nilton Lessa no grupo http://www.facebook.com/groups/WGAlternativeLearning/permalink/260862220717549/%5D

O que já é pacífico. Organização bottom up (emergente) não é hierarquia. Hierarquia é organização top down (concebida e aplicada antes da interação). Agora vamos ao que não é pacífico (ainda):

1) Organização em seres vivos não-humanos não gera hierarquias. Por alguma razão, a hierarquia não advém: sobrevém. Então exemplos de redes distribuídas em sistemas não-humanos esclarecem muitas coisas sobre organizações humanas (sociais), inclusive fornecem elementos para a compreensão da fenomenologia da interação ligada à topologia (como o estudo da Deborah com as formigas revelou), mas não podem fornecer elementos para o entendimento da interação em campos hierárquicos.

2) Campos hierárquicos são campos antissociais (num sentido maturaniano do termo). Mas processos antissociais só se manifestam em ambientes sociais (num sentido não-maturaniano do termo: assim, por exemplo, dizer que as formigas são seres sociais é um equívoco desse ponto de vista). O social só se forma entre humanos, não deriva da biologia. Na verdade, o social é o humano (tudo que nos constitui que não deriva da nossa biologia). Arrumei uma maneira impactante de dizer isso afirmando que o social é uma outra criação.

3) Dentre as funções sistêmicas emergentes em redes distribuídas humanas (quer dizer, sociais, no sentido não-maturaniano do item 2 acima) uma parte delas (das que já são identificáveis agora) nasce da interação com hierarquias. Aliás, vale dizer, no limite, que todas as que são identificáveis agora (e atribuíveis a sujeitos particulares, como papéis sociais) provêm de dinâmicas distribuídas ensaiadas em ambientes centralizados. Assim é com os hubs, os netweavers, os catalisadores de processos de rede em comunidades, os guardiães do kernel. Imaginar que seriam estas as funções sistêmicas emergentes em campos sociais isotrópicos é projetar (passado sobre o futuro). A observação de seres não-humanos que se organizam em função da interação (como é o caso das formigas) pode, sim, lançar alguma luz sobre como seriam tais papeis entre os humanos. Mas não é suficiente para a antevisão do que seriam tais papeis mais-humanos. Ou seja, o simbionte social não deriva do simbionte natural (voltamos assim ao ponto 2 acima). Se isso fosse possível qualquer coisa como uma “sociologia” poderia ser derivada de qualquer coisa como uma biologia (no sentido maturaniano do termo). Não pode.

4) Ensaios de dinâmicas sociais distribuídas em ambientes centralizados são possíveis (é o que fazemos os que experimentam redes). Ensaios de dinâmicas distribuídas em ambientes sociais distribuídos, no entanto, são aproximações utópicas (no sentido estrito do conceito). Mas se as redes distribuídas forem tomadas como utopia (no melhor sentido da palavra, quer dizer, não como projeto irrealizável e sim como a estrela polar dos navegantes que guia a jornada) isso vai contra a própria dinâmica distribuída. A topia das redes distribuídas é o processo de distribuição e não o resultado do processo, é o modo de caminhar e não o porto de chegada. Isso significa que toda tentativa de criar ilhas de distribuição à margem dos sistemas centralizados desconstitui o processo de distribuição. As ilhas na rede centralizada são ilhas (temporárias, fugazes, bolhas abertas por small bangs) dentro dos campos centralizados e não fugas.

5) Descentralizar a religião criando miríades de microrreligiões significa ter ainda religiões. Só distribuir a religião leva a ter não-religiões. Cada pessoa que chega em um ambiente que pretendemos distribuído é um replicante de ambiente centralizado. Se a porta permanecer aberta não há como se proteger da influência do mundo centralizado. Não adianta convencer tais pessoas (isso seria tentar consertá-las pela intoxicação de utopia, quer dizer, um processo de conversão muito próximo da conversão religiosa). Voltamos assim ao item 3 acima. Para entender isso é preciso entender que os mundos sociais são pessoas (não disposições urdidas e animadas de propósitos compartilhados).

Fonte: Facebook
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