VARRENDO PARA DENTRO? – Augusto de Franco

Augusto de  Franco

Sobre as circularidades da corrente interativa que não queremos deixar escapar

Há três anos alguns amigos estamos repetindo uma frase que à primeira vista pode parecer surpreendente: nós já descobrimos a “fórmula” e a “fórmula” é a rede. Esta frase quer dizer que não há caminho para a rede, pois a rede é o caminho; ou seja: que para chegar a novas formas de convivência e de organização mais distribuídas do que centralizadas, não há alternativa senão começar a praticar – hoje, não amanhã – formas de convivência e de organização mais distribuídas do que centralizadas.

Isto é a transição para a rede. Não há como adotar formas de convivência e de organização mais centralizadas do que distribuídas como estratégia para se chegar a formas de convivência e de organização mais distribuídas do que centralizadas. Não há como usar uma organização fechada como meio para se chegar a uma organização aberta.

Apesar disso, mesmo os que afirmamos essas coisas, somos surpreendidos, não raro, fazendo o oposto do que apregoamos. Sob o pretexto de que a cultura de determinado ambiente não está ainda preparada para a rede, adotamos modos de relacionamento e padrões de organização que fecham em vez de abrir.

E aí, mesmo protestando o contrário, fazemos grupos proprietários, com marcas distintivas e tentamos capturar fluxos para ficar rodando dentro dos ambientes que estruturamos.

O que é mais incrível é que fazemos isso declarando o oposto: que estamos estruturando ambientes abertos à interação ou em rede. Ser aberto, ser em rede mais distribuída do que centralizada, acaba virando marketing, no melhor dos casos branding – mas tudo como elementos de uma estratégia. O que revela que há uma estratégia na cabeça dos que fazemos isso. E enquanto houver uma estratégia, uma maneira – por mais doce, suave e gentil que seja – de ganhar os outros, seduzir os outros, utilizar os outros para atingir um objetivo urdido por nós antes da interação, estaremos caminhando na contra-mão do que divulgamos.

Só há uma maneira de resistir à tentação de formar um grupo ou pertencer a um grupo: pertencer a vários grupos simultaneamente. Então, se alguém frequenta sempre o mesmo lugar, conversa sempre com as mesmas pessoas ou até conversa com todas as pessoas que chegam (ou se conectam) mas sempre a partir de um núcleo recorrente de pessoas – as mesmas – formando um inner circle (conquanto informal e não-intencional), pode-se apostar sem grande risco de errar: quem faz isso está formando um grupo mais estratégico do que os demais grupos, está selecionando fluxos e valorizando um fluir interno de modo aumentativo em relação aos outros fluxos que ocorrem no seu ecossistema mais ampliado (o que fecha em vez de abrir). E o mais curioso, repito, é que quem faz isso, o faz proclamando o contrário. Fica até parecido com aqueles militantes de organizações autocráticas que vivem fazendo discursos elogiando a democracia.

Isso acontece nas mais diversas atividades. Pessoas que defendem a livre-aprendizagem acabam estruturando algum tipo de escola. Pessoas que vivem propagandeando (e tentando vender) propostas de rede adotam ferramentas fechadas aos outros, com níveis baixos de interatividade (basta espiar seus sites para constatar o óbvio). Pessoas que fazem propostas de empreender em rede e de viver no fluxo do rio interativo sobrevivem, na verdade, dos açudes que construíram. Pessoas que pregam a democratização da democracia, organizam grupos de militantes em prol de uma causa exercitando modos de regulação que produzem artificialmente escassez.

Mas o pior de tudo é que essas pessoas, mesmo quando proferindo discursos que exalçam a colaboração, acabam adotando uma prática competitiva. E elas competem, sobretudo, com quem está mais próximo, porque avaliam que quem está mais próximo pode ameaçar mais a sua estratégia, as suas iniciativas, a sua liderança (sim, quando há competição, sempre há competição pela liderança, pela influência sobre as pessoas que são usadas pelo líder para implantar a sua estratégia ou levar ao sucesso suas iniciativas).

A competição, por certo, não é um objetivo, não é nem mesmo uma escolha racional: é apenas a consequência do modo como nos relacionamos. Se você faz um grupo (mesmo dizendo que não é um grupo fechado, mesmo dizendo que é uma rede aberta, mesmo jurando por deus que não está fazendo isso e que não quer fazer isso), a competição surgirá.

Mas a competição não é natural. Não é um defeito nem uma característica intrínseca à natureza humana. Não emerge da livre interação. Ela só brota quando se captura fluxos para fazê-los rodar em um mesmo ambiente. É um atributo do fluir recorrente, em looping, daquelas circularidades da corrente interativa que, por algum motivo, não queremos deixar escapar!

E aí… bem, aí começamos a ficar preocupados com outros fluxos que ocorrem em nossa vizinhança. Queremos trazê-los para dentro do nosso ambiente. Com a melhor das boas intenções, tudo parece fazer sentido: afinal, queremos atrair mais pessoas, adensar o fluxo daquilo que estamos empreendendo com tanto amor no coração, muitas vezes com sacrifício, frequentemente colocando nossos próprios recursos para configurar o ambiente ideal inicial que, então, poderá (como ansiamos) gerar iniciativas mais autônomas, capazes de andar com suas próprias pernas. Então, começamos a avaliar outras iniciativas como riscos “externos”, como algo que pode drenar energias que julgamos necessárias para a consecução da nossa estratégia.

Minha experiência e minhas reflexões indicam que tudo isso acontece quando não conseguimos resistir à tentação de pertencer a um grupo. E indica também que – quando isso acontece – é sinal de que não estamos adotando a “fórmula” que já descobrimos: fazer redes, sem a preocupação de capturar ou direcionar fluxos para um objetivo pré-fixado, não importa se tal objetivo só é conhecido inicialmente por nós, intimamente. Dá no mesmo. Quando só nós temos claro um objetivo pré-fixado, não conseguimos evitar que se formem – a partir de nós ou até independentemente de nós – círculos mais fechados com seus próprios objetivos pré-fixados. A onda se propaga a partir da direção imprimida pelo movimento inicial. É assim que uma coisa projetada para ser fora do eixo acaba dentro do eixo.

A solução, portanto, não é nos isolarmos dos outros. Pelo contrário, a solução é interagir mais, não menos. Mas interagir em vários ambientes, interagir com vários grupos, sem eleger um deles como mais estratégico do que os demais. Evitar, a todo custo, ser alguém identificado com uma única iniciativa, com um único nome, com uma única marca. Não capturar pessoas e não capturar fluxos (em certo sentido, é a mesma coisa). Não se deixar capturar por pessoas e não se deixar capturar em fluxos já condicionados a percorrer determinadas trajetórias. Não tratar os outros como objetos, como se fossem peças importantes de nossa estratégia ou do nosso empreendimento. Não querer ganhar, não seduzir, não “varrer para dentro”; enfim: não usar o outro.

Para concluir.

Há espaço de sobra – e haverá cada vez mais numa sociedade-em-rede – para várias iniciativas, para vários empreendimentos, inclusive conexos, conectados, interligados, interagentes. Não é como no filme Highlander: “Só pode haver um”. Não é necessário disputar nada com ninguém. Só fazer ou não-fazer (percebendo o fluxo e o refluxo).

E se alegrar.

fonte: Facebook

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